Marcelo Barros – Observatório de Evangelização https://observatoriodaevangelizacao.com Wed, 12 Mar 2025 23:09:36 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8 https://i0.wp.com/observatoriodaevangelizacao.com/wp-content/uploads/2024/04/cropped-logo.png?fit=32%2C32&ssl=1 Marcelo Barros – Observatório de Evangelização https://observatoriodaevangelizacao.com 32 32 232225030 “Templos, Igrejas e protestos”, com a palavra Ir. Marcelo Barros https://observatoriodaevangelizacao.com/templos-igrejas-e-protestos-com-a-palavra-ir-marcelo-barros/ https://observatoriodaevangelizacao.com/templos-igrejas-e-protestos-com-a-palavra-ir-marcelo-barros/#comments Fri, 11 Feb 2022 12:46:15 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=43396 [Leia mais...]]]> Diante das discussões sem profundidade do fato ocorrido na Igreja do Rosário em Curitiba, um protesto contra a banalização da violência e das manifestações crescentes de racismo em nosso país, protesto pela dignidade da vida e do povo negro, convidamos você a ler o artigo do monge beneditino Marcelo Barros: “Em Roma, o papa Francisco pode considerar prioritário dialogar com movimentos populares e defender a vida de migrantes africanos, mas essa não é ainda a sensibilidade de muitos ministros e fieis católicos no Brasil. As pastorais sociais da CNBB e muitos padres e agentes de pastoral participaram dos atos de protesto e de denúncia contra o racismo. Muitos religiosos gritaram com as organizações populares que “vidas negras importam”, mas para muitos cristãos, católicos e evangélicos, esse assunto parece não fazer parte do anúncio da fé e da missão da Igreja... Originalmente, o Cristianismo não tinha templos e sim Igrejas. Enquanto os santuários se colocam como locais sagrados, Igrejas significam espaços de assembleia. Quando o apóstolo Paulo chamou as comunidades às quais escrevia de Igrejas, estava afirmando que eram assembleias de pessoas não reconhecidas como cidadãs pelo império, mas que nas comunidades cristãs, podiam se reunir e se manifestar como assembleias de cidadãos e cidadãs do reinado divino no mundo. Ainda hoje, quando manifestantes ocupam uma Igreja, de alguma forma, interpelam aos senhores do templo: Qual é o sentido e a missão da Igreja?

Confira na íntegra a reflexão de Marcelo Barros:

Manifestação Justiça por Moise, em Curitiba — Foto: Victor Hugo/RPC

Templos, Igrejas e protestos

Ir. Marcelo Barros

Nesses dias, a imprensa ávida por qualquer notícia sensacionalista que legitime denúncias contra movimentos populares e partidos considerados de esquerda, se deleitou com imagens e narrativas do que chamaram de invasão de uma Igreja em Curitiba. Autoridades eclesiásticas e civis protestaram contra o desrespeito ao lugar sagrado e o assunto está sendo debatido na própria câmara de vereadores da cidade.

O debate se dá sobre o fato dos manifestantes terem entrado na Igreja depois da Missa e terem expressado dentro do templo a denúncia contra o assassinato truculento e cruel de Moise, jovem congolês, barbaramente torturado e assassinado, em um quiosque na Barra da Tijuca. Nestes mesmos dias, ocorreu também, no Rio de Janeiro, a morte de outro negro, baleado por vizinho policial, que o confundiu com um ladrão. Naquele final de semana, em diversas regiões do Brasil, ocorreram manifestações de protestos contra esses atos extremos de racismo contra negros. Em Curitiba, no centro histórico da cidade, o ato se reuniu em frente a uma Igreja, que, historicamente, pertenceu a uma confraria negra. Depois do horário da missa, no final da tarde, os manifestantes entraram na Igreja e encerraram ali o seu protesto pacífico.

Sobre o fato, podem se fazer várias considerações. Antes de tudo, em termos metodológicos e estratégicos, organizações populares e partidos progressistas tomaram posições críticas em relação ao ocorrido. De fato, o grupo que fazia a manifestação não sofreu nenhuma perseguição, não fugia de nenhuma repressão e não precisava ter ocupado a Igreja, sem permissão dos responsáveis pelo templo.

Do ponto de vista institucional, todos sabem que a maioria dos eclesiásticos católicos concorda que Igrejas sejam usadas para missas de posse de governadores ou prefeitos de direita. No entanto, considera desrespeito ao lugar sagrado qualquer manifestação de categorias populares que possa ser vista como sendo de esquerda.

Em Roma, o papa Francisco pode considerar prioritário dialogar com movimentos populares e defender a vida de migrantes africanos, mas essa não é ainda a sensibilidade de muitos ministros e fieis católicos no Brasil. As pastorais sociais da CNBB e muitos padres e agentes de pastoral participaram dos atos de protesto e de denúncia contra o racismo. Muitos religiosos gritaram com as organizações populares que “vidas negras importam”, mas para muitos cristãos, católicos e evangélicos, esse assunto parece não fazer parte do anúncio da fé e da missão da Igreja.

Sonhamos com tempos nos quais padres e bispos não somente não se oponham, como fiquem felizes quando suas Igrejas forem ocupadas pacificamente por grupos populares que defendem a justiça e a vida para todas as pessoas humanas e na comunhão com todos os seres vivos.
Ir. Marcelo Barros

Na época da ditadura militar brasileira, em Recife, estudantes que protestavam contra a repressão ocuparam uma Igreja no centro da cidade. Assim que soube, o próprio arcebispo Dom Helder Camara foi para a Igreja e se colocou lá ao lado dos estudantes até conseguir que eles pudessem sair do templo em segurança. O mesmo ocorreu em Salvador, BA, onde a Igreja ocupada pelos rapazes e moças foi a basílica do Mosteiro de São Bento. O abade Dom Timóteo Amoroso Anastácio não somente abriu as portas da Igreja, como declarou o Mosteiro como espaço de abrigo e santuário de proteção da juventude. Do mesmo modo, em São Bernardo do Campo, em 1980, a Igreja Matriz foi abrigo para assembleias dos metalúrgicos em greve perseguidos pela ditadura.

Atualmente, embora em outro contexto político, a sociedade tem direito de cobrar dos responsáveis das Igrejas a coerência profética com o evangelho de libertação. Originalmente, o Cristianismo não tinha templos e sim Igrejas. Enquanto os santuários se colocam como locais sagrados, Igrejas significam espaços de assembleia. Quando o apóstolo Paulo chamou as comunidades às quais escrevia de Igrejas, estava afirmando que eram assembleias de pessoas não reconhecidas como cidadãs pelo império, mas que nas comunidades cristãs, podiam se reunir e se manifestar como assembleias de cidadãos e cidadãs do reinado divino no mundo. Ainda hoje, quando manifestantes ocupam uma Igreja, de alguma forma, interpelam aos senhores do templo: Qual é o sentido e a missão da Igreja?

Ao mesmo tempo que desejamos que os movimentos populares sempre se esmerem por respeitar educadamente a todos os ambientes e deem exemplo de diálogo com todas as pessoas com as quais se encontram, pedimos a Deus que os discípulos de Jesus aceitem retomar o caráter profético da fé cristã.

Mesmo se a postura do arcebispo e da arquidiocese de Curitiba tem sido, em geral, mais aberta e solidária, sonhamos com tempos nos quais padres e bispos não somente não se oponham, como fiquem felizes quando suas Igrejas forem ocupadas pacificamente por grupos populares que defendem a justiça e a vida para todas as pessoas humanas e na comunhão com todos os seres vivos.

Sobre o autor:

Marcelo Barros

Ir. Marcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo biblista brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de dom Helder para assuntos ecumênicos. É membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Assim, em seu blog, ele se define: “Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar”. Marcelo recebeu, em 2021, o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Dentre seus mais de 50 livros publicados, artigos e assessorias, destacamos aqui: Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes, 2019); com Emerson Sbardelotti e Edward Guimarães, organizou com mais de 40 autores, 50 anos de Teologias da Libertação. Memórias, revisão, perspectivas e desafios (Recriar, 2022).

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A fé que salva e a relação que liberta https://observatoriodaevangelizacao.com/a-fe-que-salva-e-a-relacao-que-liberta/ Sun, 27 Jun 2021 23:58:19 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=39853 [Leia mais...]]]> Neste XIII Domingo comum do ano B, o evangelho (Mc 5, 21-43) traz o relato de duas curas que Jesus faz na Galileia. Ele tinha atravessado o lago para a região estrangeira de Gérasa, mas criou problemas para os criadores de porcos e estes o expulsaram dali. Então, Jesus voltou para a Galileia que fica na beira do mar e cura duas pessoas.  

Marcos mostra o contraste entre a proposta de Jesus e a religião ritual, na Galileia representada pela sinagoga. É irônico que o evangelho use o verbo sinagogar para dizer que a multidão se reúne em torno de Jesus e não na religião dos rabinos. No evangelho, o mar sempre representa os desafios do mundo desconhecido. Mas, é ali que a multidão se reúne e Jesus trata de dois casos de pessoas com risco de morte: uma menina de doze anos e uma mulher que também, havia doze anos, sofria de sangramento.

Para a sociedade judaica da época, Jairo era uma pessoa socialmente importante. Foi presidente da sinagoga; símbolo dos judeus que buscam a Jesus. Jairo faz o oposto do que os gerasenos haviam feito. Esses pediram a Jesus para ir se embora, afastar-se deles. Ao contrário, Jairo pede a Jesus para ir à sua casa e curar sua filha doente. E Jesus vai.

No entanto, no meio daquela ida, o evangelho deixa de lado o homem, (judeu ilustre, chefe da sinagoga) e centra sua atenção sobre uma mulher anônima, pobre e considerada impura e pecadora. Marcos dá mais importância à mulher. Coloca-a no centro da cena. Mostra que, para Jesus, a prioridade é curar as pessoas marginalizadas. 

Faith, Pintura de Yongsung Kim

Conforme a lei judaica, uma mulher que sofre perda de sangue é considerada impura. Vive como pecadora (Lv 15, 19-30). Por sofrer perda de sangue, sabe que, se tocasse em Jesus, o deixaria impuro perante a lei e proibido de frequentar o templo e a sinagoga. Ela sabe que não deve tocá-lo. Mas pensa “ao menos na franja da sua roupa”. Toma coragem e o toca furtivamente, de forma clandestina. Jesus sente sair de si uma força e quer saber quem foi. Os discípulos protestam, mas ele chama a mulher para o centro da cena e fala com ela. Ele ia curar a filha do chefe da sinagoga. Mas, a aquela mulher anônima, ele chama de “filha”. E diz: “A tua fé te salvou”. 

Conforme os evangelhos, Jesus só disse essa palavra a mulheres como essa. Disse também à mulher estrangeira (cananeia), da qual ele cura a filha. E, conforme Lucas, ao leproso curado que era samaritano, isso é, de outra tradição religiosa. O evangelho salienta que a cura se dá pela força da fé da mulher e não pelo poder de Jesus. No entanto, foi a palavra de Jesus e o acolhimento dele ao chamá-la de filha que a reintegra na comunidade e a confirma na sua missão de mulher digna e igual aos discípulos.

Aquela cena de cura foi mais do que uma cura. Foi a proclamação da dignidade da mulher. Para a profecia da fé, não bastam tolerância e compaixão. É necessária a acolhida radical e transformadora de todas as pessoas marginalizadas e excluídas. É preciso colocá-las no primeiro lugar do corpo de Cristo que é a comunidade. Aquela mulher se tornou símbolo de toda mulher e mesmo de todas as pessoas que precisam ser libertadas do peso da impureza legal, da marginalidade social e do patriarcalismo cultural e religioso. 

Um dos maiores escândalos das Igrejas hoje é conviver com o patriarcalismo. Por uma leitura fundamentalista de textos bíblicos tirados do seu contexto, alguns pastores de Igreja ainda dizem a mulheres oprimidas, maltratadas ou abusadas por seus maridos crentes que, para agradar a Deus, elas precisam se conformar com a injustiça e continuar sendo vítimas do machismo. Na Igreja Católica, é crime maior ainda que eclesiásticos mantenham relações de dominação com mulheres religiosas ou leigas e estas não denunciem para não prejudicar a missão. 

O relato da reanimação da filha de Jairo é como um final da história. É para nos dizer que reintegrar a mulher curada é o modo de anunciar a ressurreição de Jesus. O evangelho inteiro é para isso. Onde se aceita qualquer tipo de discriminação da mulher se nega que só sendo um discipulado de iguais, podemos ser discípulos e discípulas de Jesus.

Talitha Cumi, pintura de Koleva Timothy

Hoje, a discriminação não se dá mais pelo corrimento de sangue na mulher e sim pela não aceitação da orientação sexual diferente. Hoje, para muitas Igrejas, a impureza legal está sobre a população LGBTQI+. Nada. Nenhum verso da Bíblia poderia ser honestamente usado para legitimar a iniquidade dessa injustiça e violência terrível. No entanto, até hoje, muitas Igrejas ainda são cúmplices e legitimadoras da homofobia dessa sociedade sem coração. 

Ao reler, hoje, esse evangelho da cura da mulher e da ressurreição da menina, precisamos compreender que onde não há respeito e abertura para todos os gêneros e orientações sexuais não há verdadeiro testemunho da ressurreição de Jesus. Provavelmente, no tempo do evangelho, as comunidades já tinham o desafio de integrar na comunhão as pessoas tidas como diferentes (que a religião tradicional considerava impuras). Até hoje, as Igrejas estabelecem regras para quem pode e quem não pode comungar. O evangelho conta que, Jesus, depois de levantar a filha morta de Jairo, diz às pessoas da casa: “dothenai Aute phagein”, “dai-lhe de comer” (5, 43). Nas Igrejas, a ceia de Jesus deve ser aberta a todos e todas, como sinal de vida, de integração igualitária e sinal de uma sociedade de comunhão. 

Ir. Marcelo Barros

Sobre o autor:

Ir. Marcelo Barros

Ir. Marcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo biblista brasileiro. Assim como Teilhard Chardin contemplava o mundo como um altar, Marcelo Barros contempla o mundo, a partir dos mais pobres e vulneráveis, como o seu mosteiro. Ele pertence a comunidade Bremen. Em 1969, ele foi ordenado padre por dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de dom Hélder para assuntos ecumênicos. Ele é assessor das CEBs, das Pastorais Sociais e dos Movimentos Populares. Ele é membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo – ASETT, que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Ele é membro da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – SOTER. Em seu blog, assim ele se define: “Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar”. Autor de muitos livros e artigos, tais como: Teologias da Libertação para os nossos dias. Vozes, 2019; A água nossa de cada dia nos dá hoje. Editora CONIC/ Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, 2018; Diálogos com o amor. Como orar os Salmos, orar o Hoje do mundo. Editora Kelps, 2017.

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“Estes dias que dão o que pensar”, com a palavra o monge que acolhe o mundo como mosteiro e de todos se faz irmão do caminho Marcelo Barros https://observatoriodaevangelizacao.com/estes-dias-que-dao-o-que-pensar-com-a-palavra-o-monge-que-acolhe-o-mundo-como-mosteiro-e-de-todos-se-faz-irmao-do-caminho-marcelo-barros/ Thu, 28 Jan 2021 17:43:59 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=37808 [Leia mais...]]]> Marcelo Barros é daqueles monges singulares que fizeram do mundo o seu mosteiro. Uma pessoa lindamente livre para se aproximar das pessoas, para amar e servir e que considera o outro, de modo muito especial, o empobrecido, o excluído, o oprimido sempre um irmão do Caminho. Vale a pena ler e se deixar provocar pelos seus livros, frequentar o seu blog e segui-lo no facebook. É daquelas pessoas que sempre nos enriquece e que, pelo seu textos, nos desborda e nos provoca a sermos mais humanos.

Confira:

Estes dias que dão o que pensar

Vou confessar uma coisa: neste momento, às vezes me vem uma tentação que antes nunca senti e que não corresponde ao meu modo de ser. Sinto-me tentado a viajar para um local sem internet nem telefone e, assim, tomar tempo para enfrentar isso que em seu diário nos anos 80, o Pedro Casaldáliga chamava “estes dias que dão o que pensar”.

É claro que, para quem é como sou, acontecerá o que ocorreu quando, conforme Marcos, Jesus chamou os discípulos para descansarem em um lugar retirado (Mc 6, 30ss). Quando chegaram no tal lugar do retiro, já encontraram a multidão que os esperava. Mas, em minha oração da madrugada de vigília pergunto a Deus por que? E descubro que acordo de manhã com medo de ligar telefone, de ler os e-mails e ver o zap. Quem partiu hoje e quem está para partir amanhã. Quem será o próximo e o que dizer ou como reagir… Ontem foi um amigo querido – Frederico Arruda – Fred – ou o chamávamos de Ferinha – com o qual morei quatro ou cinco anos na Casa da Fraternidade (quando éramos jovens). E todo dia é assim. Até quando, meu Deus?

Nestes dias, tento seguir, à medida que posso, as atividades virtuais do Fórum Social Mundial e dentro deste do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Servem um pouco para nos fazer olhar com esperança para um amanhã no qual não esperaremos o sol nascer. Vamos tentar apressar o amanhecer.

E de repente encontro em alguma das mensagens que me mandam este poema escrito há mais de 200 anos e em um contexto bem diferente e me sinto como se o tivesse escrevendo agora:

Quando a tempestade passar,

as estradas se amansarem,

E formos sobreviventes

de um naufrágio coletivo,

Com o coração choroso

e o destino abençoado

Nós nos sentiremos bem-aventurados

Só por estarmos vivos.

E nós daremos um abraço ao primeiro desconhecido

E elogiaremos a sorte de manter um amigo.

E aí nós vamos lembrar tudo aquilo que perdemos e de uma vez

aprenderemos tudo o que não aprendemos.

Não teremos mais inveja pois todos sofreram.

Não teremos mais o coração endurecido

Seremos todos mais compassivos.

Valerá mais o que é de todos do que aquilo que nunca consegui.

Seremos mais generosos

E muito mais comprometidos

Entenderemos o quão frágeis somos,

e o que significa estarmos vivos!

Vamos sentir empatia por quem está

e também por quem se foi.

Sentiremos falta do velho

que pedia esmola no mercado,

que nós nunca soubemos o nome

e sempre esteve ali ao nosso lado.

E talvez o velho pobre

fosse Deus disfarçado…

Mas você nunca perguntou o nome dele

Porque estava com pressa…

E tudo será milagre!

E tudo será um legado

E a vida que ganhamos será respeitada!

Quando a tempestade passar

Eu te peço Deus, com tristeza,

Que você nos torne melhores,

como você “nos” sonhou.

(K. O ‘ Meara – Poema escrito durante a epidemia de peste em 1800)

Sobre o autor:

Marcelo Barros

Ir. Marcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo biblista brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de Dom Hélder para assuntos ecumênicos. É membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Assim, em seu blog, ele se define: “Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar”.

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A volta da profecia na voz dos cuidadores do povo de Deus https://observatoriodaevangelizacao.com/a-volta-da-profecia-na-voz-dos-cuidadores-do-povo-de-deus/ Mon, 05 Oct 2020 12:08:51 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=35212 [Leia mais...]]]> No domingo, dia 26/07/2020, agências de notícias e a internet reproduziram a carta coletiva assinada por 152 bispos brasileiros sobre a catástrofe do desgoverno ao qual o Brasil está submetido nos dias atuais.

Para cidadãos/ãs não ligados à Igreja, esta carta veio revelar que a sociedade civil brasileira pode contar ao menos com uma grande parte dos ministros e de grupos católicos na tarefa urgente de tirar o Brasil do abismo em que se encontra. Não dá mais para avaliar o equilíbrio de forças no Brasil a partir do resultado das eleições de 2018, quando a maioria das pessoas que se dizem cristãs votou pela extrema-direita e a maioria dos que se dizem ateus votou pela democracia.

Para muitos cristãos, tanto da Igreja Católica, como de outras Igrejas, a palavra dos pastores veio trazer alento e confirmação no caminho de uma fé profética que exige posicionamento claro em um momento no qual calar significa ser conivente com um genocida internacionalmente reconhecido como responsável pela situação desastrosa do nosso país, tanto frente à pandemia do Covid 19, quanto às suas consequências sociais e econômicas. Sem falar no acirramento de um clima de violência e intolerâncias que diariamente ele fomenta na sociedade.

Ao ler este documento atual, quem viveu a inserção da Igreja Católica na vida e na realidade do Brasil do começo dos anos 70 e 80 não pode deixar de compará-lo com alguns documentos históricos que, naquela época, bispos da Igreja Católica no Brasil ainda conseguiam publicar.

É difícil imaginar como poucos anos depois da proclamação do AI-5 e sob os tempos mais duros da ditadura militar brasileira, em maio de 1973, 18 bispos e superiores religiosos do regional Nordeste II da CNBB publicaram o documento “Ouvi os Clamores do Meu Povo” em 1973. No mesmo ano, alguns bispos e missionários da Amazônia publicaram o documento de urgência: “Y-Juca Pirama – o Índio: aquele que deve morrer”. E poucos meses depois, seis bispos do Centro-oeste publicaram o texto “Marginalização de um Povo, o Grito das Igrejas” em 1974.

É claro que estes documentos tinham um tom profético de liberdade, que dificilmente textos mais oficiais e votados pelo conjunto do episcopado conseguem. No entanto, em 1980, ainda tivemos um documento oficial, aprovado em assembleia geral e publicado pela CNBB: Igreja e problemas da Terra. Neste texto, os bispos analisavam e denunciavam claramente os resultados do desenvolvimento capitalista no campo brasileiro.

Qualquer pessoa que analisar todos os documentos emanados do episcopado brasileiro na história, sejam documentos do conjunto do episcopado, sejam de grupos de bispos, vai concordar comigo que estes textos refletem o máximo da profecia social e política que nossos bispos alcançaram. Nunca houve algo igual ou mais contundente antes ou depois. Foram os documentos mais ousados e importantes, emanados da hierarquia católica no Brasil. Michael Lowy chega a declarar: “na verdade, esses documentos foram as declarações mais radicais jamais publicadas por um grupo de bispos em qualquer parte do mundo…” (Lowy, 2000, p. 145).

Provavelmente, a força dos documentos dos bispos do Nordeste e do Centro-oeste está no fato de que ambos os documentos têm uma linguagem simples e acessível à maioria das pessoas. Ambos se apoiam em dados sociais e econômicos públicos e conhecidos. Além disso, denunciam com clareza e dando o nome ao sistema capitalista. O documento dos bispos do Centro-oeste afirma diretamente: “O sistema capitalista é a fonte de todos os males que assolam a vida do povo”.

Agora, a atual carta é assinada por um número de bispos bem mais expressivo do que os 18 do Nordeste e os 6 do Centro-oeste que assinaram os documentos de 1973. Só podemos desejar que estas denúncias claras contra o desgoverno que nos assola possam continuar por posicionamento claro destes bispos sobre os setores da nossa própria Igreja que apoiam esta iniquidade ou simplesmente ao se omitirem nesta hora a legitimam. E que uma porção assim tão significativa do nosso episcopado possa levantar sua voz profética para deixar claro que por trás do feitor que tortura os escravos está o senhor que nem mora no engenho, mas é quem financia e sustenta este sistema. Sem alertar a sociedade para o Império responsável pela desestabilização social e política de nossos países, nós sairemos de títere em títere sem termos voz e vez próprias. A América Latina, que na década passada, através de organismos de solidariedade como CELAC e UNASUL (sem falar no Mercosul) caminhava para uma integração continental se encontra de novo fragmentada e dividida.

Só podemos agradecer de coração aos nossos pastores sua palavra profética e esperar que eles nos ajudem a viver a vocação da catolicidade como caminho humano e social e não apenas como instituição eclesiástica.

Referências bibliográficas:
1 – LÖWY, MICHEL – A Guerra dos Deuses. Religião e política na América latina. Petrópolis: Vozes/CLACSO/LPP, 2000.
2 – MORAIS, J, F, REGIS – Os Bispos e a Política no Brasil. São Paulo: Editora Cortez/Editora Autores Associados, 1982.
3 – PESSOA, JADIR DE MORAIS – A Revanche Camponesa. Goiânia: Editora Universidade Federal de Goiás, 1999.

Sobre o autor:

Ir. Marcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo biblista brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como seu secretário e assessor de para assuntos ecumênicos. É membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Assim, em seu blog, ele se define: “Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar”. Para conhecer seus textos: http://www.marcelobarros.com.

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Os Livros Sagrados que Deus nos revela https://observatoriodaevangelizacao.com/os-livros-sagrados-que-deus-nos-revela/ Fri, 25 Sep 2020 20:39:03 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=35708 [Leia mais...]]]> Na Igreja Católica, setembro é o mês da Bíblia. Neste mês, o último domingo, ou seja, este próximo é celebrado como “o dia da Bíblia”. Igrejas evangélicas celebram o dia da Bíblia em um domingo de dezembro. Seja como for, parece que, atualmente, o melhor modo de valorizar a Bíblia seria libertá-la de um uso instrumentalizador e desumano que alguns grupos fazem.

De fato, desde tempos antigos, a religião, qualquer que ela seja, tem sido usada pelos poderosos para legitimar o seu poder. Isso tem ocorrido também no uso da Bíblia. Muitas vezes, a Bíblia foi usada até para matar. Na história, a Igreja usou textos bíblicos para condenar hereges à fogueira. Em nome da Bíblia, o próprio Jesus foi condenado à morte, acusado de ter blasfemado contra o templo e por se dizer filho de Deus.

Em nome de Jesus e da Bíblia, impérios que se diziam cristãos conquistaram e colonizaram nosso continente. Até quase nossos dias, missões cristãs atacaram e demonizaram culturas indígenas e levaram doenças e morte a comunidades originárias. Nestes dias, quase cotidianamente, em nome de Jesus e motivados pela Bíblia, grupos pentecostais atacam e destroem templos afro-brasileiros. No Congresso Nacional, há uma bancada que se diz da Bíblia para legitimar as bancadas do boi e da bala. Muitos dos congressistas se orgulham de pertencerem às três, como se fossem uma só.

Há quem culpe a Bíblia pelo fato de que, nas eleições de 2018, a maioria das pessoas que se dizem cristãs votou pelo candidato do ódio e da violência, enquanto a maioria dos que se dizem ateus votou pela democracia.

O apóstolo Paulo escreveu: “A letra mata. É o Espírito que faz viver” (2 Co 3, 6). Grupos e Igrejas fundamentalistas não conseguiram apagar ou jogar no lixo esta palavra. A própria Bíblia deixa claro que ela não quer ser lida ao pé da letra. Nos evangelhos, a todo momento, Jesus diz: “na Bíblia, se lê assim, mas eu tenho outra interpretação para isso” (Mt 5, 21 ss). Se nós somos discípulos e discípulas de Jesus, devemos desenvolver na leitura da Bíblia a mesma liberdade espiritual que Jesus viveu e nos propôs.

De acordo com a nossa fé, Deus se revela à humanidade através de dois livros: o primeiro é o livro da vida. A própria terra e a natureza são palavras que nos comunicam permanentemente o amor divino. As comunidades católicas costumam dizer em cada celebração da ceia de Jesus: “O céu e a terra estão cheios da vossa presença”. E este Deus que nos manifesta o seu amor na criação, nos dá sua Palavra através dos acontecimentos da vida. Mas, para decifrar esta mensagem, precisamos do segundo livro sagrado que Deus revelou: a Bíblia para os judeus e cristãos e outras revelações para outros grupos espirituais e outras religiões.

Na compreensão judaico-cristã, a Bíblia não é diretamente a Palavra de Deus. Ela é a escritura da Palavra de Deus. Em um de seus primeiros escritos, Carlos Mesters a comparava com uma partitura musical. Para quem toca um instrumento ou canta, a partitura é muito útil. No entanto, a mesma partitura possibilita que a canção ali escrita possa ser interpretada por alguém como lamento e por outro como protesto. Uma mesma canção de amor pode ter versão mais dolente, ou interpretação mais alegre. No Novo Testamento, as primeiras gerações de cristãos e cristãs leram a Bíblia de formas diversas, que não se opõem, mas ao contrário, se complementam.

Este mês da Bíblia pode ser oportuno para nos ajudar a descobrir uma palavra de Deus nos textos antigos para assim discernir, o que o Espírito de Deus diz, hoje, às Igrejas e ao mundo. A Bíblia, lida de forma não fundamentalista, pode ajudar-nos a compreender o que Deus nos diz através dos acontecimentos de cada dia.

Há quem pense na Bíblia como luz que esclarece tudo. No entanto, não é esta a experiência dos primeiros cristãos. Na 2ª carta atribuída a Pedro, o autor descreve os textos bíblicos, não como farol ou luzeiro e sim como lampadazinha “que fazeis bem em prestar atenção. Ela (a palavra da Escritura) brilha em lugar escuro até que o dia clareie a estrela da manhã, o sol, brilhe em vossos corações” (2 Pd 1, 19).

Ir. Marcelo Barros

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é “Teologias da Libertação para os nossos dias”, Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

Fonte:

www.marcelobarros.com

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Neste contexto de violência e banalização da vida, especialmente da vida dos povos originários, evocamos a memória de São Bartolomeu de Las Casas https://observatoriodaevangelizacao.com/neste-contexto-de-violencia-e-banalizacao-da-vida-especialmente-da-vida-dos-povos-originarios-evocamos-a-memoria-de-sao-bartolomeu-de-las-casas/ Fri, 17 Jul 2020 14:14:42 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=35106 [Leia mais...]]]>
São Bartolomeu de las Casas

No dia 17 de julho, na América Latina, evocamos a memória da morte-ressurreição do São Bartolomeu de las Casas, o primeiro bispo de Chiapas, missionário e teólogo dominicano que ficou conhecido como o “Apóstolo dos indígenas”, pois criticava a prática genocida dos conquistadores repetindo:

Nos corpos dos índios escravizados, o Cristo continua sendo crucificado pelos próprios cristãos!

O testemunho e o pensamento de São Bartolomeu de Las Casas foi fonte singular da Teologia da Libertação do teólogo dominicano peruano Gustavo Gutiérrez que, juntamente com outros teólogos cristãos católicos e protestantes, foi decisivo para alimentar a caminhada da Igreja dos pobres na América Latina e o processo de recepção do Concílio Vaticano II a partir da Conferência de Medellin, em 1968.

Neste momento em que, em nosso país, nos deparamos:

  • por parte do atual governo, com deliberada falta de políticas públicas emergenciais e renovado esforço de destruição das políticas públicas já existentes e garantidas na Constituição Federal;
  • com postura imoral, desumana e perversa de ignorar a urgências e de assumir a defesa da cidadania e, portanto, de não assumir a responsabilidade social do Estado, deixando que muitos integrantes das populações indígenas morram por causas que poderiam ser evitadas;
  • com renovada mentalidade de cobiça insaciável pelas terras indígenas e de exploração ecologicamente insana da Amazônia por parte de parcela significativa das elites econômicas, sobretudo ligadas ao agronegócio.

Que ressoe forte em nós o apelo do Espírito Santo para que nos solidarizemos e saíamos em defesa da cidadania e da dignidade dos povos originários e nos unamos a todos os irmãos e irmãs de cada um dos mais de 300 povos, nesta grande energia do amor que nos irmana e que vem do Espírito e é expressão da presença de Deus em nós.

Em carta enviada e divulgada na manhã de hoje, o monge beneditino, teólogo e biblista, Ir. Marcelo Barros diz:

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, 17 de julho, na América Latina, lembramos a morte de Bartolomeu de las Casas, o primeiro bispo de Chiapas, missionário e teólogo que criticava a conquista repetindo: Nos corpos dos índios escravizados, o Cristo continua sendo crucificado pelos próprios cristãos.
Neste momento em que o projeto do governo federal é praticamente deixar morrer as populações indígenas, que ressoe forte em nós o apelo do Espírito para nos solidarizarmos aos povos indígenas e nos unirmos a todos os irmãos e irmãs de cada um dos mais de 300 povos indígenas brasileiros, nesta grande energia do amor que vem do Espírito e é expressão de Deus em nós.
Sugiro, hoje, que façamos juntos com eles esta prece de um índio Guarani do sul do Brasil que recolhi no livro “Diálogos com o Amor”:


“Ó Grande Espírito, cuja voz ouço nos ventos e cujo alento dá vida a tudo o que existe no mundo, escuta-nos. Sou pequeno e fraco.
Necessito de tua força e sabedoria. Deixa-me andar em beleza e faze que meus olhos contemplem sempre com amor o vermelho púrpura do por-do-sol. Faze que minhas mãos respeitem todas as coisas que criaste
e meus ouvidos sejam aguçados para ouvir tua voz e segui-la.
Dá-nos a sabedoria para retomar as coisas antigas que ensinaste ao meu povo. Deixa-me aprender as lições escondidas em cada folha,
oculta em cada rocha. Dá-nos a força de nos manter unidos/as
e não querer sermos mais do que ninguém, mas unidos formarmos uma só família com todos os seres que criaste”.

Ouso ainda propor a vocês outro assunto. Como vocês sabem, incentivados por irmãos e mestres maiores como Adolfo Pérez Esquivel, Leonardo Boff e outros, há uma campanha mundial de solidariedade para pedir a concessão do Prêmio Nobel da Paz para a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos. Em uma conferência online, militantes e intelectuais, representantes de movimentos sociais em 14 nações – entre elas o Brasil – impulsionaram o movimento de coordenação da proposta no continente americano.
Além de propor reconhecimento ao trabalho, a indicação ao Nobel é uma forma de reconhecimento a um trabalho que é marginalizado por governos conservadores, em especial nos Estados Unidos.
Essa brigada atua desde 1963 quando socorreu milhares de pessoas na Argélia. Esteve presente e atuante no socorro às vítimas do terremoto do Peru (1970) e em 2007 no Haiti. Está presente em mais de 30 países do mundo. No Brasil, médicos cubanos que atendiam pelo Mais Médicos tiveram que deixar o país em meio a sucessivas ofensas por parte de Jair Bolsonaro. A histórica atuação para atendimento às vítimas do ebola na África Ocidental em 2014 e 2015 é reconhecida mundialmente. Em 2017, a brigada recebeu o Prêmio Doutor Lee Jong-Wook 2017 de Saúde Pública, entregue pela Organização Mundial da Saúde (OMS) pelo trabalho. (Brasil de Fato, 15/ 07/ 2020).
A campanha está na internet e é facilmente acessada por quem quiser. Sugiro que todos os irmãos e irmãs que se sentirem sensibilizados/as por esta causa procurem assinar e divulgar. Muito obrigado e Deus os/as abençoe.

Abraço do irmão Marcelo

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Boa notícia em meio ao terremoto do mundo https://observatoriodaevangelizacao.com/boa-noticia-em-meio-ao-terremoto-do-mundo/ Sun, 12 Apr 2020 04:04:30 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=34617 [Leia mais...]]]> Estou convencido de que nenhuma palavra humana, nenhuma explicação racional seriam suficientemente capazes de expressar a beleza e o encanto que a noite pascal contém. Até hoje, a Vigília Pascal da noite desse sábado ou madrugada do domingo pode ser considerada, como dizia Santo Agostinho, “a mãe de todas as vigílias da Igreja”. No século III, os cristãos de Abilene no norte da África enfrentaram o martírio só para não ter de renunciar a celebrá-la. Não que eles reduzissem a experiência da fé ao culto. A razão é que eles sentiam necessidade da Vigília para alimentar a fé e um novo estilo de vida. Por isso, escreveram ao imperador: “Sem a vigília do Senhor não podemos viver”. 

Neste ano da graça de 2020, por todos os continentes, ministros e fieis católicos estão sendo obrigados a descobrir formas leigas e domésticas de celebrar essa Páscoa, em meio à quarentena. Nessa vigília, acolhemos a boa nova da Páscoa, dada pelo amor divino, na resistência da Mãe Terra, das águas e da natureza. Vivemos essa Páscoa em meio à dor da perda de muitos irmãos e irmãs e de uma tragédia que o mundo nunca tinha antes passado. Mas, essa tragédia do coronavírus nos adverte de que no mundo no ano passado foram mortos oito milhões de pessoas e não pelo coronavírus e sim pela crise ambiental que o Capitalismo provocou. São quase um bilhão de seres humanos abaixo do nível da pobreza e expostos à fome e à miséria. Nenhum coronavírus do mundo é tão cruel quando os nossos governos e a elite que sustenta esse sistema. 

Mas, eles não podem nos impedir de celebrar a Páscoa, mesmo em nosso isolamento temporário. Cada em sua casa, contemplamos nessa noite a lua cheia, primeiro sinal da Páscoa. É Páscoa porque chegou a primeira lua cheia da nova estação (a primavera no hemisfério norte). Assim como essa lua é uma nova lua cheia, esta Páscoa também é uma Páscoa nova. Isso aparece na imagem do fogo novo, aceso para se começar a vigília. Neste ano, recolhidos em casa, a chama terá de ser de uma simples vela. Acolhemos a mensagem no louvor da água, mãe da todos os seres vivos. Acolhemos a Páscoa principalmente no alimento da Palavra de Deus. Meditamos nas muitas páscoas (passagens de Deus) em nossas vidas e na vida do povo bíblico. Escutando de novo a passagem simbólica da saída dos hebreus do Egito e da travessia do Mar Vermelho, nos comprometemos a retomar o nosso primeiro amor. Na fé bíblica, o primeiro amor ao qual Deus nos chama é a espiritualidade do Êxodo, ou seja, a opção espiritual pela caminhada da libertação. Participamos disso, movidos e guiados pelo Espírito, ventania que soprou e abriu o mar para os hebreus passarem, ventania que foi o Anjo do Senhor que, na madrugada de domingo, removeu a pedra do sepulcro vazio de Jesus. É esse mesmo Espírito (sopro) que nos faz retomar a caminhada de Maria Madalena e a outra Maria para ver, constatar o sepulcro vazio e sermos testemunhas da ressurreição hoje.

Nessa vigília, depois de retomarmos o cântico do Aleluia que na tradição latina, não dizemos durante toda a Quaresma, escutamos a boa nova da ressurreição que nos foi dada pela comunidade de Mateus (28, 1- 10). Diferente dos outros relatos da ressurreição, Mateus afirma que o Anjo do Senhor, o mesmo que antigamente soprou para dividir o mar e o povo hebreu passar, agora, desceu, removeu a pedra e se sentou sobre ela. E isso teria ocorrido em meio a um grande terremoto. 

Nesta Páscoa de 2020, a humanidade está vivendo o grande terremoto provocado pelo Covid-19 e por todos os vírus que o egoísmo humano e a ambição provocam. Em meio a esse terremoto, ainda há padres, pastores e grupos cristãos que insistem em falar de Deus como se ele fosse culpado desse vírus. Ou se mesmo sem ser culpado, bastaria ele querer e poderia acabar com a epidemia e o mundo voltar a ser como era antes. Padres saem jogando água benta nas pessoas. Convocam-se jejuns para aplacar a ira de Deus. Parecem hoje, os novos guardas do governador que tomavam conta do túmulo de Jesus para ele ficar bem sepultado. Crentes de um Deus raivoso e de um Jesus vingativo. Esses nada têm a ver com as mulheres que receberam a boa notícia da ressurreição. 

Somos chamados a continuar o caminho daquelas mulheres na madrugada desse dia novo que Deus deu para nós. Temos de testemunhar a pedra da sepultura removida e o Anjo do Senhor sentado sobre a pedra que esse terremoto não consegue abalar nem demover. Atualmente, muitos mensageiros (anjos) de Deus engravidam o mundo de ressurreição. Cuidam dos doentes, providenciam máscaras para a população carente e providenciam marmitas solidárias para pessoas que estão na rua. Também são anjos da ressurreição, vocês, jovens que buscam e ensaiam novos estilos de vida. Não é fácil em meio aos escombros provocados pelo Capitalismo assassino, organizar novo projeto de vida e colocar esse projeto no rumo do testemunho do Cristo ressuscitado. 

Em toda a Bíblia ressurreição é como nova insurreição. Na profecia de Ezequiel (37), os ossos secos que retomam a vida formam um grande exército. Se o povo de Deus não se levanta como povo contra a escravidão e o império da morte que nos domina, ninguém ressuscita. Sem insurreição não há verdadeira ressurreição. Como canta Jonathan Silva no Samba da Utopia,

Se acontecer, afinal, de entrar em nosso quintal, a palavra tirania, pegue o tambor e o ganzá, vamos pra rua gritar a palavra Utopia

Na Argentina, nos tempos da ditadura militar das mais sangrentas da América Latina, Maria Elena Walsh compôs e Mercedes Sosa imortalizou com sua voz uma canção que Renato Teixeira traduziu no Brasil: “Como la cigarra“. Nela escutamos a voz de cada um de nós, mas o eu dessa canção é principalmente o sujeito coletivo, protagonista de todas as resistências: povos indígenas, comunidades afrodescendentes, minorias sexuais e étnicas, todos que podem cantar assim:


“Tantas vezes me mataram
Tantas vezes eu morri
Mas agora estou aqui
Ressuscitando.
Agradeço ao meu destino
E a essa mão com um punhal
Porque me matou tão mal
E eu segui cantando
Cantando ao sol
Como uma cigarra
Depois de um ano embaixo da terra
Igual a um sobrevivente
Regressando da guerra.

Tantas vezes te mataram
Tantas ressuscitarás
Tantas noites passarás
Desesperando
Mas na hora do naufrágio
Na hora da escuridão
Alguém te resgatará
Para ir cantando
Cantando ao sol
Como uma cigarra
Depois de um ano embaixo da terra
Igual a um sobrevivente
Regressando da guerra.”

Sobre o autor:

Marcelo Barros

Ir. Marcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo biblista brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como seu secretário e assessor de para assuntos ecumênicos. É membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Assim, em seu blog, ele se define: “Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar”. É autor de muitos livros. Para conhecer seus textos: www.marcelobarros.com.

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Medellin, Igreja para todos a partir dos pobres https://observatoriodaevangelizacao.com/medellin-igreja-para-todos-a-partir-dos-pobres/ Fri, 07 Sep 2018 03:22:40 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=28907 [Leia mais...]]]> Há 57 anos, nessa data (06 de setembro de 1968), se encerrava a 2ª Conferência dos bispos católicos da América Latina e Caribe. Ela ocorreu em Medelllín (Colômbia) e significou praticamente o nascimento de uma Igreja com cara latino-americana e caribenha. De fato, a Igreja Católica está presente no continente desde a colonização há mais de 500 anos, mas somente a partir de 1968 conseguiu deixar de ser uma Igreja europeia que parecia sempre estrangeira.
A conferência de Medellín teve como tema “A missão da Igreja no processo de transformação social e política da América Latina”. Pela primeira vez, um papa atravessou o Atlântico e Paulo VI abriu a conferência, dando aos bispos apoio e estimulando a que eles adaptassem o Concílio Vaticano II ao continente, mas indo além dele. Na época, Dom Helder Camara e depois Dom Pedro Casaldáliga afirmaram: “Para a América Latina, Medellín foi um verdadeiro Pentecostes”.
Medellín se caracterizou por três temas fundamentais:
1. saber ler e interpretar os sinais dos tempos, como havia proposto o papa João XXIII. (Isso significa prestar atenção e inserir-se na realidade social, política e cultural de nossos povos).
2. A partir da situação de profunda desigualdade social e injustiça existente no continente, a Igreja deve sempre unir-se aos pobres, apoiar as suas organizações próprias e unir-se a eles na caminhada por sua libertação.
3. A libertação social e política dos povos e de cada pessoa não é apenas uma meta qualquer. É etapa e sinal da salvação que Jesus veio trazer ao mundo. Por isso, os processos de libertação dos povos e das pessoas fazem parte intrínseca e essencial da missão da Igreja.
A missão da Igreja não é apenas religiosa, nem principalmente cultual. Em Medellín, os bispos nos ensinaram que a missão da Igreja é testemunhar e ensaiar no mundo o reino de Deus, isso é, o projeto divino de justiça e de paz. Entre muitas afirmações e propostas importantes, em Medellín, os bispos concluíram que a Igreja deve ser pobre, missionária e pascal, ou seja, como diz o papa Francisco “em saída”. Sua missão é servir como libertadora “de toda a humanidade e de cada ser humano por inteiro”(Cf. Conclusões de Medellin, 5, 15).
A partir de Medellín, surgiu no continente um novo modo de ser Igreja que se expressou nas comunidades eclesiais de base, nos grupos bíblicos, nas pastorais sociais e na inserção de uma parte das Igrejas na caminhada da libertação. De 1968 para cá, o mundo mudou muito. O Império norte-americano conseguiu invadir vários países. Ele provocou várias guerras, vendeu e usou suas armas. Matou uma boa quantidade de pobres, africanos, asiáticos e latino-americanos, considerados descartáveis.
Quanto à Igreja Católica, ela sobrevive a várias crises e escândalos de diversos tipos. No entanto, a traição mais séria dos eclesiásticos mais tradicionais não é em matéria de moral sexual. É questão de humanidade. O que está vindo à tona como omissão, ou conivência culpável de autoridades religiosas atesta uma insensibilidade em relação a vítimas inocentes. No entanto, revela um desvio mais profundo e radical: o afastamento do caminho do evangelho de Jesus. Esse não se interessou em fazer uma religião ou em deixar no mundo uma estrutura de poder que se auto-protegeria. Conforme o evangelho de Lucas, seu projeto, proclamado, em seu primeiro discurso público foi: “O sopro (Espírito) de Deus veio sobre mim e me enviou para trazer a libertação dos oprimidos, curar os doentes e proclamar um ano de graça (jubileu) de libertação para todos” (Lc 4, 16- 21).
No decorrer da história, os eclesiásticos reinterpretaram esse texto em um sentido espiritualizador. A cura se refere aos problemas interiores e a libertação é a salvação da alma. Aqui, o mundo pode continuar dominado pelos senhores do dinheiro e do poder. Infelizmente, ainda há eclesiásticos que, enquanto podem, lhes são muito próximos. Em séculos passados, muitos bispos e padres davam assistência espiritual aos senhores de escravos e, de vez em quando, eles mesmos recebiam alguns escravos como presentes. Essa forma de interpretar a fé e a espiritualidade se mantém muito forte seja no Congresso Nacional, onde está bem representada pela chamada “bancada evangélica”, como pelo comércio religioso, que cada dia é mais lucrativo. Agora, através dos 50 anos da conferência de Medellín e das crises pelas quais passa a Igreja, os cristãos e cristãs são chamadas a “ouvir o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas”e “voltar ao seu primeiro amor” (Ap 2, 5- 7). Na Bíblia, o primeiro amor do povo foi o Êxodo, onde conheceu intimamente a Deus, em meio à caminhada da libertação. É preciso voltar a essa mística da caminhada libertadora.
Quando a Igreja passa a olhar apenas para si mesma e se preocupa apenas com suas atividades internas, se torna idólatra. Deixa de ser sinal de Jesus Cristo e apresenta uma imagem mesquinha e indigna de Deus. Ainda bem que, nas periferias, com ou sem apoio oficial, as comunidades e pastorais proféticas continuam obedecendo a voz do Espírito que sopra onde quer. Medellín foi um marco e precisamos lembrá-lo porque, em muitos casos, a nossa Igreja em 2018 parece que nem consegue ainda chegar ao que Medellín chegou em 1968. No entanto, é claro que, hoje, os desafios são outros e é urgente nos abrir ao que o Espírito diz hoje às Igrejas. Como disse Paulo, “onde houver espírito de liberdade, aí está o Espírito de Deus” (2 Cor 3, 17). ​

2014_11_entrevista_consciencia_negra_marcelo_barros1_reproducaoMarcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo biblista brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de Dom Hélder para assuntos ecumênicos. É membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Assim, em seu blog, ele se define: “Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar”.

Fonte:

www.marcelobarros.com.br

 

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A ventania do Espírito nas tempestades da vida https://observatoriodaevangelizacao.com/a-ventania-do-espirito-nas-tempestades-da-vida/ Mon, 21 May 2018 11:24:41 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=28098 [Leia mais...]]]>  

Que alegria acreditar que as comunidades eclesiais de base, as pastorais sociais e os movimentos populares, mesmo fragilizados pela pressão e pelos ataques de um sistema dominante opressor, são animados e conduzidos pelo Espírito Divino.

Imensa graça crer que, mesmo se luto contra o que dentro de mim, recusa a se renovar, posso sempre contar com a presença amorosa e renovadora do Espírito.

Que alegria testemunhar essa força revivificante atuante nas pessoas e em todas as iniciativas de solidariedade e de transformação do mundo.

Hoje, a liturgia das Igrejas celebra a festa de Pentecostes, ou seja, o quinquagésimo dia da Páscoa.

O Pentecostes antigo começou nos últimos períodos do primeiro testamento, como celebração de ação de graças pela aliança de Deus no Sinai. No meio do deserto, Deus completou a libertação do seu povo e casou com Israel para expressar seu projeto de casar com a humanidade toda. Antigamente, no monte Sinai, Deus tinha se revelado no fogo e no tremor de terra.

De acordo com o livro dos Atos dos Apóstolos, depois que Jesus ressuscitou, em uma festa de Pentecostes, os discípulos e discípulas do Cristo, reunidos, receberam a plenitude do Espírito que Jesus prometeu.  Nesse novo Pentecostes, no lugar das chamas de fogo, dos trovões e relâmpagos que desciam sobre a montanha, eram como que “línguas de fogo” para revelar que o primeiro dom do Espírito é a comunicação. De fato, ali, naquele mesmo instante, juntou-se uma pequena multidão; pessoas de várias nacionalidades e culturas. Diz o texto: “todos escutavam os apóstolos e os compreendiam como se eles estivessem falando a língua de cada um”.

Quem viaja como eu conhece bem o drama da diferença de línguas. Uma vez, fiz escala de quase um dia em Copenhague, na Suécia. Era difícil compreender e se comunicar com ninguém. E o pior, não é a diferença de línguas, mas de linguagem. Na maior parte das vezes, nossa experiência é que sofremos mais pelos desentendimentos que temos no dia a dia, mesmo quando falando todos uma mesma língua. Mas, o Espírito Santo não se restringe a ser uma espécie de aparelho de tradução simultânea. A sua ação é muito mais profunda: é no sentido da linguagem, da cultura interior. Ele nos dá a graça de nos compreender. Faz conosco o contrário de Babel (Gen 11). Lá, o propósito dominador e imperial (Babel era Babilônia) levou à divisão e à destruição. Em Pentecostes, o Espírito suscita unidade e a construção de uma nova comunhão.

Hoje, no mundo colonialista, os migrantes e refugiados são obrigados a aprender a língua da nação na qual se refugiam. A Bíblia diz que o milagre de Pentecostes foi o Espírito Santo fazer os apóstolos serem capazes de ser compreendidos na língua de cada povo. Não é o imperialismo da cultura que se impõe, mas ao contrário, a abertura a todas as culturas.

O Evangelho de João que ouvimos nesta festa (João 20, 19-23) nos diz que o dom do Espírito é consequência da ressurreição de Jesus e do encontro nosso com o Ressuscitado. Ele nos dá a paz, nos devolve a alegria profunda do coração, nos confirma o perdão de Deus e pede que sejamos testemunhas deste perdão. “Recebam o Espírito. A quem perdoarem…”, Jesus não abre a possibilidade da comunidade não perdoar alguém. Temos de perdoar todo mundo. Ele deu tudo de sua vida para reconciliar com Deus até os seus inimigos. Trata-se da prática que os primeiros cristãos tinham de “ligar e desligar” a pessoa do pecado: responsabilizar ou des-responsabilizar. O perdão é gratuito, mas é preciso refazer o que foi destruído. Ele nos diz: “A responsabilidade das divisões e das guerras é do modo como vocês organizam este mundo”. Ele nos perdoa totalmente, mas nos dá a tarefa de nos empenhar e nos consagrar como testemunhas e construtores da paz.

Se nos abrirmos hoje ao Espírito Santo, seremos mesmo, eu e cada um/uma de vocês, profetas, profetizas de Deus.

  1. Tornando-nos pessoas verdadeiramente tomadas pelo Espírito. Não mais seguidores de ritos ou de uma religião externa, mas templos do Deus Vivo. Portadores do Espírito.
  2. Seremos portadores do Espírito na sua tarefa de dizer o que “o Senhor nos manda dizer e fazer” nas Igrejas e no mundo.

Nessa tarde, na varanda das Fronteiras, começamos a celebração de Pentecostes cantando um salmo cujo refrão é inspirado no livro da Sabedoria: “O Espírito do Senhor, o universo todo encheu, tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia, aleluia“(Sb 1, 7). Mesmo se cremos nessa verdade e podemos nos alegrar com essa presença em nós do Espírito, a Igreja nos aconselha a sempre de novo pedirmos que ele venha, venha e venha e nos impregne com o seu amor.

Em uma poesia, Dom Pedro Casaldáliga orava assim:

Vem, Espírito Santo, vem,

ou melhor, vamos:
Faze que nós vamos

aonde Tu nos levas.
Tu nunca Te ausentas,
ar que respiramos,

vento que acompanhas,
clima que aconchegas.
Vem, para levar-nos por esse Caminho,
o Caminho vivo, que conduz ao Reino.
Vem, para arrancar-nos,
numa ventania de verdade e graça,
de tantas raízes de mentira e medo
que nos escravizam.
Vem, feito uma brisa, para amaciar-nos,
feito um fogo lento,

um beijo gostoso,
a paz da justiça,

o dom da ternura,
a entrega sem cálculos,

o amor sem cobrança,
a Vida da vida.
Vem, pomba fecunda, sobre o mundo estéril
E suscita nele a antiga esperança,
a grande utopia da Terra sem males,
a antiga, a nova, a eterna Utopia!
Vem, vamos, Espírito!

 

2014_11_entrevista_consciencia_negra_marcelo_barros1_reproducaoMarcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo biblista brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de Dom Hélder para assuntos ecumênicos. É membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), que reúne teólogos da América Latina, África, Ásia e ainda minorias negras e indígenas da América do Norte. Assim, em seu blog, ele se define: “Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar”.

Fonte:

www.marcelobarros.com.br

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Para iluminar… a “Noite da Vigília Pascal”, o “Sábado Santo” https://observatoriodaevangelizacao.com/para-iluminar-a-noite-da-vigilia-o-sabado-santo/ Sat, 31 Mar 2018 23:37:23 +0000 https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/?p=27716 [Leia mais...]]]> Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier,
Para enfeitar a noite do meu bem.
Hoje eu quero a paz de criança dormindo,
Quero o abandono de flores se abrindo,
Para enfeitar a noite do meu bem.
Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem.
Ah como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a ternura que eu quero lhe dar.

(Canção “A noite do meu bem”. Dolores Duran e Antônio Maria)

 

Meditação de Santo Agostinho para o Sábado Santo

(século IV)

Irmãos e irmãs queridos,

Nós recebemos um convite para vigiar nesta noite. Este convite nos vem do apostolo Paulo que escreveu aos coríntios que fazia vigílias frequentes e pede que nós o imitemos. Com muito mais fervor, devemos estar vigilantes nesta noite. Esta noite é a noite da vigília que é a mãe de todas as celebrações da Igreja.

Nesta noite de lua cheia, nós e todo o universo fazemos vigília porque, por nossa forma de viver, nós éramos trevas, éramos noite. Hoje, somos luz no Senhor. Por isso, iniciamos esta noite santa acendendo uma luz nova. Esta luz da fogueira e do Círio é símbolo da luz da Ressurreição pela qual poderemos resistir e impedir que as trevas da noite voltem de novo a nos invadir. Por isso, é importante encher de luzes esta noite e não deixar a luz do fogo se apagar. Que a luz desta noite bendita ilumine não só o exterior, mas o mais íntimo de cada um de nós. É nesta noite que Deus realiza conosco a profecia do salmo 139 que canta: “Mesmo as trevas não são trevas para Ti. Esta noite é luminosa como o dia”.

Na madrugada desta noite, antes que o sol brilhasse no horizonte, nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou. Nesta noite, nasceu nossa alegria, ou melhor, renasceu do túmulo, porque do meio da escuridão brilhou a luz da Ressurreição. A única tristeza que permanece é que nós e o mundo continuamos penando sob o peso de tantas dores, mas Jesus Cristo ressuscitou para nos trazer uma força nova. Alegremo-nos.

Esta noite já pertence, de fato, ao dia do domingo porque a Ressurreição de Jesus tornou esta noite mais luminosa que o dia mais claro. A ressurreição iluminou nossas escuridões. E nós expressamos esta iluminação pelo sacramento do batismo, sinal e instrumento de nossa Ressurreição com Jesus.

É preciso que as chamas da fogueira aqueçam nossos corações e permitam que nossos espíritos vejam além de nossos olhos da carne. Consagremos esta noite que se acaba com o domingo por uma grande festa e proclamemos ao mundo que, mesmo no meio das dores e das trevas de todas as desordens, Deus faz brilhar a luz da Ressurreição na qual somos batizados e pela qual somos chamados a viver com o Cristo, agora e sempre.

(Sermão para o Sábado Santo)

Queridos irmãos e irmãs,

(aqui começo eu a falar com vocês)

Não estamos mais na época da cristandade de Santo Agostinho, nem pensamos mais o mundo inteiro como cristão. Olhamos em volta de nós e para muita gente, mesmo de nossa convivência, essa noite não diz nada. Não tem nenhum sentido especial. Não é somente Jesus que está na sepultura. É a própria possibilidade da fé. E o túmulo no qual Jesus hoje está contido e enterrado nem parece ser o mundo ateu. Infelizmente, as nossas próprias Igrejas que deveriam ser ensaios do Reino de Deus na terra se transformam em túmulos fechados com uma pedra muito pesada que impedem as mulheres, mesmo as santas mulheres, de entrar no túmulo e cumprir o ministério profético e hoje episcopal da unção. Quando as Igrejas se fecham em suas tradições e seus ministros se apresentam à humanidade antes de tudo por sua vaidade e seu gosto pelo poder sagrado, impedem a humanidade de crer verdadeiramente que Jesus ressuscitou e que um mundo novo pode começar.

Mas, o evangelho dessa noite de Vigília Pascal nos diz que – apesar da religião estabelecida (seja o Judaísmo, seja o Cristianismo, seja qualquer outra) ficar na lei e na ordem do poder que acabou levando as autoridades judaicas a se associar ao Império para condenar Jesus à morte – as mulheres que iam ao sepulcro de Jesus encontraram a pedra removida e o túmulo vazio. A pedra não foi removida por Jesus e nem por anjos para que Jesus se levantasse do sepulcro porque a Ressurreição de Jesus não é apenas a revificação de um cadáver. É uma vida nova que o Pai lhe deu através do Espírito e nesse sentido o túmulo vazio apenas testemunha que a morte não é o lugar no qual possamos procurar Jesus. “Não procurem entre os mortos Aquele que está vivo”.

A_festa_da_Pscoa_Artigo_01042013152013

Eu o encontro em vocês, na força do amor solidário e nos grupos sociais que lutam por um mundo novo. Eu o encontro quando consigo transformar o jardim do sepulcro que está em mim e está no mundo em jardim do encontro amoroso e ressuscitador de vida, de esperança e de alegria. Aleluia. Desde tempos muito antigos, na celebração eucarística desse domingo, as Igrejas de tradição latina cantarão um refrão inspirado no salmo 139, o mesmo citado por Santo Agostinho no seu sermão da Vigília Pascal:

“Ressuscitei, Senhor, contigo estou, Senhor.
Teu grande amor, Senhor, de mim se recordou.
Tua mão se levantou, me libertou!”

(Tradução de Reginaldo Veloso)

Desejo a você e a todos os seus uma feliz celebração pascal, com todas as energias do Espírito, seja a partir da tradição cristã, seja de outra tradição espiritual, sempre como caminho de amor e de vida nova.
Abraço,

do irmão Marcelo Barros

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